Acusação quer demonstrar que Davis, o ex-líder do gangue South Side Compton Crips, encomendou homicídio e forneceu a arma que matou Tupac. Aos 63 anos, arrisca pena de prisão perpétua.
O julgamento poderá não desvendar quem disparou contra o músico, que visitava a cidade para assistir a um combate de boxe de Mike Tyson, na noite de 7 de Setembro de 1996. Contudo, a acusação espera demonstrar que Davis, o ex-líder do gangue South Side Compton Crips, encomendou o homicídio e forneceu a arma do crime. Aos 63 anos, arrisca uma pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
O homicídio continua a ser um dos casos não desvendados mais famosos dos Estados Unidos, objecto de debates sem fim entre os fãs de música. Morto aos 25 anos, Tupac era uma figura central na famosa rivalidade entre as cenas de rap das costas Leste e Oeste dos Estados Unidos.
O julgamento promete mergulhar de novo nas guerras de egos entre a sua editora Death Row Records, fundada por Marion “Suge” Knight, e a Bad Boy Records, criada na costa Leste, em Nova Iorque, por Sean “P. Diddy” Combs, onde trabalhava Christopher Wallace, também conhecido por The Notorious B.I.G. ou Biggie — outro rapper morto seis meses após a morte de Tupac Shakur.
A morte de Tupac é apontada por muitos como o gatilho para o assassínio de Wallace, morto a tiro em Los Angeles, em Março de 1997, num homicídio que também continua por resolver. Os dois crimes, ocorridos com apenas seis meses de intervalo, são frequentemente vistos como um momento marcante na história do hip-hop, tendo contribuído para o fim de uma era.
Davis seria “mandante” do plano
Segundo a acusação, a Death Row Records era protegida pelos Mob Piru, uma gangue de Los Angeles da qual Suge era membro; enquanto a Bad Boy Records estava associada à organização rival dos South Side Compton Crips, liderada por Duane Davis.
Após o combate de Mike Tyson no casino MGM Grand, Suge e Tupac agrediram o sobrinho de Duane Davis, Orlando Baby Lane Anderson, por este ter arrancado um medalhão do pescoço de um dos funcionários da Death Row.
A polícia obteve imagens de segurança do hotel que mostravam vários homens a pontapear e a esmurrar uma pessoa que identificaram como Anderson. Um dos atacantes foi identificado como Marion “Suge” Knight.
Depois de obter uma arma de um sócio não identificado, Davis, juntamente com Anderson e dois outros homens, Terrence Brown e Deandre Smith, entraram num Cadillac branco e partiram para localizar o BMW preto em que seguiam Knight, ao volante, e Shakur, como passageiro. Quando o alcançaram, foram disparados tiros a partir do Cadillac contra o lado do passageiro do BMW: Shakur foi atingido quatro vezes. Knight, que foi atingido de raspão na cabeça, sofreu apenas ferimentos ligeiros, tendo sido enviado para a prisão no mês seguinte por ter violado os termos da sua liberdade condicional ao ter participado no confronto no MGM.
Davis “orquestrou o plano que foi levado a cabo para cometer este crime”, disse o tenente Jason Johansson, do Departamento da Polícia Metropolitana de Las Vegas, numa conferência de imprensa em 2023, altura em que Davis foi formalmente acusado. Por falta de provas, a investigação estagnou durante décadas, antes de ser reactivada pela publicação, em 2019, das memórias de Duane Davis.
No livro, Compton Street Legend, relata que se encontrava no banco da frente do Cadillac branco de onde foram disparadas as balas que acabariam por matar Tupac. Explica também ter passado uma pistola para o banco traseiro, sem nunca dizer quem disparou. Todos os passageiros do veículo morreram entretanto. O rapper, que sofreu múltiplos ferimentos de balas, viria a morrer seis dias depois, a 13 de Setembro, de hemorragias internas e insuficiência respiratória.
Declarações comprometedoras e coerentes com entrevistas anteriormente concedidas à imprensa acabaram por se voltar contra ele e levaram à sua detenção em Setembro de 2023. No entanto, o ex-chefe de gangue nega agora essas confissões. “Sou inocente. Nunca matei ninguém”, assegurou Davis, em Março de 2025, à emissora ABC News, numa entrevista a partir da prisão. “Não têm qualquer prova contra mim. Nem sequer conseguem provar que eu estava em Las Vegas.”
Davis também diz que se encontrava em Los Angeles na noite do crime e que nunca leu as suas próprias memórias e alega que estas foram romantizadas pelo seu co-autor por razões comerciais. “Apenas lhe dei detalhes sobre a minha vida”, afirmou. “E ele foi fazer a sua pequena investigação e escreveu o livro sozinho.”
Antes do julgamento, os seus advogados lutaram para que o livro, bem como um interrogatório policial realizado em 2008 em que foi ouvido como testemunha, não pudessem ser utilizados como elementos de acusação. Em vão. A audiência deverá durar quatro semanas, sendo a primeira inteiramente dedicada à selecção dos jurados. Qualquer que seja o veredicto, é pouco provável que satisfaça os familiares de Tupac Shakur.
Em Maio, o seu meio-irmão apresentou uma acção civil na qual defende que “continuam a existir indivíduos envolvidos no homicídio de Tupac que, há 30 anos, não foram responsabilizados pelos seus crimes”.
A queixa menciona, nomeadamente, a recente mini-série documental Sean Combs: The Reckoning, na qual Duane Davis assegura, num interrogatório policial, que P. Diddy lhe terá oferecido um milhão de dólares (o equivalente na época a 154 milhões de escudos, cerca de 768 mil euros) para assassinar Tupac.
Suspeito do assassínio do rapper Tupac Shakur vai a julgamento 30 anos após crime
Do gangsta rap ao Passeio da Fama
O influente Shakur, amplamente considerado um dos maiores artistas da música rap, foi também um dos mais bem-sucedidos comercialmente, vendendo mais de 75 milhões de discos em todo o mundo.
Era conhecido pelas suas letras cruas, repletas de violência, sexo e palavras obscenas, que descreviam a vida no gueto. O seu álbum All Eyez on Me, lançado pouco antes da sua morte, celebrava a sua própria imagem de fora-da-lei. Outros êxitos, desde a estreia em 1991, incluíam temas como California love, Changes e I ain’t mad at cha.
Adorado pelos seus fãs e detestado pelos políticos por canções que por vezes celebravam a violência e a misoginia, Shakur não era alheio a problemas, tendo passado grande parte dos últimos dois anos e meio da sua vida dentro e fora dos tribunais, prisões ou hospitais.
Isso não foi impedimento para ser homenageado várias vezes após a sua morte. Em 2005, foi inaugurada uma estátua sua, colocada no Jardim da Paz do Centro para as Artes Tupac Amaru Shakur, uma fundação dirigida pela sua mãe, situada em Stone Mountain, Georgia. Doze anos depois, foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame, por indicação do seu amigo Snoop Dogg. “Enquanto muitos se lembram dele agora como uma espécie de super-herói bandido”, observou na altura Snoop, “Tupac era realmente apenas bom e representava através da sua música como ninguém”. Em 2023, o rapper, que morreu com apenas 25 anos, conquistou uma estrela no Passeio da Fama, em Hollywood.
Fonte: Publico
